O mundo não alcançará as metas de biodiversidade de 2030 sem financiar a base da cadeia produtiva. O relatório State of Biodiversity Action da ONU, lançado às vésperas da COP17, alerta para o ritmo lento global. Para o Brasil, a solução técnica e comercial exige redirecionar o capital ESG das pontas dos projetos diretamente para produtores de sementes e mudas florestais nativas.
O aquecimento global caminha para ultrapassar o limite crítico de 1,5°C e o tempo para a adaptação climática está se esgotando. De acordo com os dados apresentados às vésperas da 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), sediada na Armênia, embora mais de 80% dos 196 países signatários tenham estabelecido compromissos, a execução prática está falhando. Para o Brasil, detentor da maior biodiversidade do planeta, a pressão internacional por resultados na redução do desmatamento e na restauração de ecossistemas degradados atinge seu ápice histórico.
Recentemente, a imprensa nacional, através do Correio Braziliense, repercutiu esses dados ao entrevistar Rodrigo Ciriello, que foi convidado a dar seu testemunho em nome da Nativas Brasil e Centro de Referência em Informação Ambiental (Cria, apesar do jornalista ter creditado apenas o Cria. Rodrigo Ciriello traz essa expertise técnica e de mercado devido a sua liderança de mais de 2 décadas à frente do departamento comercial da Futuro Florestal, e desde 2021 como um dos fundadores da Nativas Brasil Associação Brasileira de Sementes e Mudas Nativas, além coliderar a Força Tarefa de Silvicultura de Nativas da Coalizão Brasil há quase 10 anos, entidades que desenham, na prática, a viabilidade do que a ONU hoje cobra dos governos.
Qual o Gargalo do Financiamento Ambiental Segundo o Relatório da ONU?
A diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Inger Andersen, foi taxativa: os recursos destinados a atividades que prejudicam a natureza ainda superam os investimentos em conservação e recuperação ambiental. A proporção é alarmante: para cada dólar investido na proteção ambiental, gasta-se trinta dólares em destruição. O Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal exige a mobilização de US$ 200 bilhões anuais, mas o problema não é apenas o volume de capital, e sim onde ele está sendo alocado.
No Brasil, os fundos de green equity, corporações com metas de Net Zero e projetos de crédito de carbono têm despejado recursos exclusivamente na etapa final: o plantio das árvores. Essa abordagem cria um estrangulamento sistêmico. Sem investimento prévio na base da cadeia — na pesquisa genética, na coleta rastreada de sementes nativas e na modernização tecnológica dos viveiros de mudas nativas — o país não terá capacidade de fornecer os bilhões de mudas nativas com a diversidade genética necessária para atingir a meta de restaurar áreas degradadas em escala continental com florestas viáveis.
Por Que Investir na Cadeia Produtiva de Sementes e Mudas?
A visão estratégica de Rodrigo Ciriello, um dos fundadores da Futuro Florestal em 2006, expõe a necessidade de uma mudança estrutural no mercado B2B florestal. Com quase 30 anos de experiência prévia no mercado de seguros corporativos e atuando com silvicultura de nativas desde 2003, Ciriello compreende o risco implícito de um setor subfinanciado.

“Para que o Brasil avance no cumprimento de suas metas de biodiversidade, é fundamental que os investimentos deixem de estar concentrados exclusivamente na implantação dos projetos de conservação e restauração e passem a contemplar também o fortalecimento das cadeias produtivas que viabilizam sua execução”.
A produção de mudas florestais nativas não opera na mesma velocidade da indústria tradicional. O ciclo biológico das espécies dita as regras. Se uma multinacional aprova um projeto de Soluções Baseadas na Natureza (NBS) hoje, demandando 500 mil mudas de 80 espécies diferentes do bioma Mata Atlântica para o próximo semestre, o mercado simplesmente não terá como entregar se não houver planejamento prévio de pelo menos 8 meses. As sementes precisam ser coletadas em épocas específicas do ano, de acordo com seu calendário fenológico, armazenadas adequadamente, serem germinadas com rigor técnico para garantir altas taxas de germinação, além de uma produção de mudas com padrão de qualidade adequada para garantir a sobrevivência no campo, como a rustificação a pleno sol, que ajudará as mudas a enfrentarem os desafios climáticos após plantadas.
Como a Futuro Florestal e a Nativas Brasil Lideram a Solução?
A maturação do mercado florestal brasileiro exige entidades capazes de unir produtores rurais, investidores institucionais e poder público. É nesse vácuo que a Futuro Florestal atua, prestando assessoria comercial de alto nível para projetos florestais e agroflorestais sustentáveis. A empresa foca não apenas no setor de restauração sem fins lucrativos, mas também no uso madeireiro e não madeireiro de espécies nativas e exóticas, provando que a conservação pode e deve gerar lucro sustentável para sustentar o projeto, e o carbono, que hoje traz ainda o componente que financia a operação.
Para estruturar essa cadeia, Ciriello foi um dos fundadores da Nativas Brasil em 2021, entidade que vem liderando desde sua criação. A associação assumiu a liderança na organização da base do setor de restauração ecológica e modelos produtivos com espécies nativas, defendendo políticas públicas de incentivo, acesso a crédito e capital de giro para os viveiristas, legislação mais favorável e incentivos fiscais. Essa expertise de mercado que levou Ciriello à co-liderança da Força Tarefa de Silvicultura de Nativas da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, hoje um dos principais fóruns de articulação da economia de baixo carbono no país, trazendo membros que se consideram antagônicos, como o setor do agronegócio e da proteção ambiental do país, que muitas se vem em posições contrárias.
Para visualizar o impacto prático dessa reestruturação, o mercado corporativo precisa entender a diferença entre o modelo ultrapassado de conservação e a bioeconomia tracionada pela silvicultura:
| Métrica / Fator de Risco | Modelo Tradicional (Foco apenas no Plantio) | Modelo Integrado (Foco na Cadeia – Nativas Brasil) |
| Diversidade Genética | Baixa (Uso restrito às mudas disponíveis em estoque rápido) | Alta (Coleta estruturada com antecedência, garantindo resiliência climática) |
| Impacto Socioeconômico | Limitado aos operadores de máquinas e plantadores | Geração de renda perene para redes de coletores locais |
| Viabilidade de Carbono | Menor aderência e conformidade com auditorias (ex: Verra) | Alta adicionalidade comprovada e segurança jurídica |
Quais as Oportunidades Comerciais e Retornos em Projetos de Restauração?
A mudança de paradigma exigida pela ONU não é um apelo à filantropia; é uma oportunidade de negócio enterprise. Reconhecer produtores de mudas e sementes nativas como parte da infraestrutura estratégica brasileira significa transformar custos operacionais em ativos biológicos rentáveis.
Para o investidor e para o produtor rural, a silvicultura de nativas deixou de ser um sonho futuro para se tornar uma linha de receita direta. As oportunidades comerciais se dividem em três frentes principais:
- Geração de Créditos de Carbono: O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) e o mercado voluntário global pagam prêmios por projetos que aliam sequestro de carbono com alta biodiversidade (projetos Premium). O preço do crédito gerado por florestas nativas biodiversas é muito melhor remunerado do que monoculturas.
- Mercado Madeireiro Legal de Nativas: O plantio comercial de espécies nobres de ciclo longo (como Jequitibá rosa, Mogno, Guanandi etc.) consorciado com espécies exóticas como o mogno africano e a teca, permite cortes seletivos e manejo sustentável, entregando uma Taxa Interna de Retorno (TIR) projetada extremamente atrativa, superando investimentos tradicionais de renda fixa a longo prazo.
- Fornecimento de Insumos (Sementes e Mudas): Com a previsibilidade de demanda gerada por grandes corporações, os produtores de sementes e mudas nativas associados podem passar a operar com contratos futuros (offtake agreements), eliminando o risco de produção especulativa, o que garante fluxo de caixa.
Para o Brasil avançar, conforme alertado na COP17, as políticas públicas precisam acompanhar o dinamismo do mercado privado. É necessário aprimorar editais, facilitando linhas de crédito que compreendam o tempo intrínseco dos ciclos biológicos. Não faz sentido que os editais de restauração ecológica tragam o resultado das empresas selecionadas apenas na véspera das chuvas, visto que as empresas não terão tempo de comprar as mudas nativas dentro da especificação dos editais em cima da hora de plantar, e muito menos produzi-las em tão pouco tempo, o ideal é que o resultado leve em consideração o início das chuvas na região onde será implantado o projeto.
A estruturação dessa bioeconomia não será feita por atores isolados. Corporações que buscam mitigar seus impactos climáticos precisam de parceiros que dominem a complexidade do fornecimento florestal de ponta a ponta. Através da estruturação comercial realizada por empresas como a Futuro Florestal e o fortalecimento institucional promovido pela Nativas Brasil, o país demonstra que a resposta aos alertas da ONU passa, invariavelmente, por tratar a biodiversidade não como um passivo ambiental, mas como o principal motor do desenvolvimento econômico brasileiro no século XXI.
Se a sua corporação busca estruturar projetos florestais com segurança genética, viabilidade econômica e impacto ESG real, o primeiro passo é integrar a sua demanda à infraestrutura de um viveiro de confiança. Projetos de sucesso não começam no campo, eles começam na escolha correta das sementes e mudas nativas.
Artigo original – Leia no Correio Braziliense

