Seguro para viveiros de mudas nativas: a ausência de proteção trava crédito, expõe produtores e ameaça a restauração no Brasil

Seguro para viveiros de mudas nativas

A ausência de seguro para viveiros de mudas nativas expõe o elo mais estratégico da restauração ecológica a riscos crescentes e perdas recorrentes. Sem proteção adequada, produtores enfrentam dificuldades para acessar crédito, investir e manter suas operações. Esse vazio compromete não apenas o setor, mas a capacidade do Brasil de cumprir metas ambientais e avançar na bioeconomia. Enfrentar esse gargalo é essencial para garantir escala, segurança e futuro à restauração no país.

Seguro para viveiros de mudas nativas: uma ausência que revela uma falha estrutural

A falta de seguro para viveiros de mudas no Brasil não é apenas uma lacuna de mercado, é uma falha estrutural que compromete toda a cadeia da restauração ecológica e produtiva. A produção de sementes e mudas é a base de qualquer iniciativa de recuperação ambiental e, sem ela, a agenda climática simplesmente não avança.

Mesmo sendo um elo essencial, os viveiros seguem excluídos das soluções de mitigação de risco disponíveis, por exemplo, ao agronegócio. Diferentemente de culturas como soja, milho ou café, que contam com instrumentos consolidados de proteção, o setor de mudas nativas permanece à margem do sistema securitário brasileiro.

O contraste com esses segmentos do agronegócio é evidente. O seguro rural é reconhecido pelo próprio poder público como instrumento estratégico de gestão de risco e estabilidade da renda agropecuária. Em 2024, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural viabilizou mais de 138 mil apólices, cobrindo 7,27 milhões de hectares e R$51,6 bilhões em valor segurado.

Mas quando olhamos para a cadeia florestal, a assimetria salta aos olhos. No orçamento de 2024 do PSR, a rubrica “Florestas” recebeu apenas R$2,2 milhões de um total de R$1,07 bilhão. Ainda assim, a atividade florestal apareceu entre as mais eficientes em valor segurado por real de subvenção, com índice 163.

A mensagem é inequívoca: além de sub-atendido, o segmento mostra capacidade de alavancar cobertura com eficiência. Falta, portanto, menos argumento técnico e mais decisão de mercado e vontade institucional.

Essa exclusão evidencia uma contradição grave: o país exige restauração em larga escala, mas não protege o setor responsável por viabilizá-la. Trata-se de um desalinhamento entre discurso ambiental e estrutura econômica, que precisa ser urgentemente corrigido.

O seguro para viveiros de mudas nativas, portanto, não é um luxo ou um benefício adicional, é uma condição básica para que o setor opere com previsibilidade, segurança e capacidade de crescimento diante dos riscos crescentes impostos pelas mudanças climáticas.

A Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNseg) já afirmou que a agenda de seguro contra catástrofes é urgente no Brasil. O próprio Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) reconhece o seguro rural como instrumento de mitigação climática.

O que falta, agora, é transformar esse reconhecimento em desenho de produto, enquadramento técnico, modelagem atuarial, apetite de resseguro e disposição regulatória para incluir os viveiros de mudas nessa arquitetura de proteção.

Segundo Rodrigo Ciriello, presidente da Associação, a diretoria da Nativas Brasil já teve uma primeira conversa com o time da CNSeg no início de 2025, quando os técnicos do órgão entenderam a demanda do setor, porém não houve nenhum retorno para dar andamento a uma agenda consistente.

Eventos climáticos extremos já estão gerando perdas reais nos viveiros

A discussão sobre seguro para viveiros de mudas nativas não é teórica. Ela nasce de perdas concretas já enfrentadas por produtores em diferentes regiões do Brasil. Associados da Nativas Brasil relatam prejuízos severos causados por eventos climáticos extremos, como enchentes, geadas e secas prolongadas. Observe as imagens abaixo:

Muda de Jacarandá (Jacaranda brasiliana) após geada em Capão Bonito (SP).
Solis Mudas.
Viveiro Sombra do Campo, em Pareci Novo (RS), completamente alagado após fortes chuvas.Fonte:
@sombradocampo

No Rio Grande do Sul, por exemplo, houveram casos de viveiros completamente inundados, resultando em perda total da produção e risco real de encerramento das atividades. Esses episódios mostram que o risco não é hipotético, ele já está acontecendo e tende a se intensificar com as mudanças climáticas.

Além disso, geadas e estiagens têm comprometido lotes inteiros de mudas, reduzindo drasticamente a capacidade produtiva dos viveiros. Como ressaltado pelo presidente da Nativas Brasil, Rodrigo Ciriello, o setor enfrenta riscos climáticos semelhantes, ou até maiores, do que outras cadeias produtivas que já contam com seguro.

Sem seguro para viveiros de mudas nativas, esses prejuízos recaem integralmente sobre os produtores, criando um ambiente de alta vulnerabilidade econômica, que desestimula a permanência no setor, levando diversos viveiros a fecharem as portas todos os anos.

Viveiros expostos: riscos climáticos e operacionais sem qualquer cobertura

Os viveiros de mudas nativas enfrentam uma ampla gama de riscos, que vão muito além das variações climáticas. Chuvas torrenciais, vendavais, incêndios, raios e secas extremas fazem parte da rotina operacional, e nenhum desses eventos possui cobertura adequada no modelo atual de seguros.

Além disso, há riscos empresariais clássicos igualmente desprotegidos, como danos elétricos, roubo, responsabilidade civil e falhas estruturais. Ou seja, mesmo tentando contratar apólices tradicionais, os viveiristas não encontram produtos compatíveis com sua realidade produtiva, simplesmente porque a atividade de “viveiros de mudas” ou “produção de mudas”, ou uma atividade similar, não existe dentro dos sistemas das seguradoras como um ramo de atividade empresarial, portanto os corretores de seguro não conseguem fazer o cálculo e contratar tal seguro para os viveiristas.

Essa ausência de cobertura revela um problema técnico do setor segurador: a falta de enquadramento adequado da atividade de produção de mudas nativas, o que impede a criação de produtos específicos ou a adaptação de apólices existentes.

Como resultado, os viveiros operam em um cenário de risco elevado sem qualquer proteção, assumindo integralmente os impactos financeiros de eventos que já são amplamente reconhecidos em outras cadeias produtivas.

Sem seguro, sem crédito: o gargalo que trava o crescimento do setor

A ausência de seguro para viveiros de mudas nativas impacta diretamente o acesso ao crédito. Instituições financeiras exigem mecanismos de mitigação de risco para liberar financiamentos, e o seguro é um dos principais instrumentos utilizados nesse processo.

Mesmo quando linhas de crédito existem, sua contratação se torna inviável na prática, pois os bancos solicitam a contratação de seguro como condição para a operação. Sem esse requisito, o financiamento não avança!

Isso cria um impasse estrutural: o crédito está disponível no papel, mas inacessível na realidade. O setor até consegue abrir portas institucionais, mas continua travado pela ausência de instrumentos de proteção financeira.

Sem crédito, os viveiros não conseguem investir, expandir ou ganhar escala. E sem escala, a restauração ecológica no Brasil permanece limitada, incapaz de atender à demanda crescente por recuperação ambiental e cumprimento de metas climáticas.

A invisibilidade dos viveiros ameaça a restauração e a bioeconomia

O problema vai além da falta de seguro para viveiros de mudas nativas, trata-se de uma invisibilidade estrutural dentro do sistema econômico. Mesmo sendo fundamentais para a restauração, os viveiros ainda não são reconhecidos como infraestrutura estratégica da agenda climática brasileira, um setor que foi mencionado em todas as rodas da COP30 e grandes eventos do setor de carbono, porém que é invisível para o setor econômico e governamental do país.

Essa invisibilidade impede o desenvolvimento de políticas públicas adequadas, limita o interesse do mercado financeiro e reduz a capacidade de inovação no setor. Trata-se de um gargalo que afeta diretamente a bioeconomia e as soluções baseadas na natureza.

Como reforça a Nativas Brasil, não faz sentido anunciar metas ambiciosas de restauração, fomentar mercados de carbono, discutir transição ecológica, sem garantir as condições mínimas para que o setor produtivo funcione de forma segura e resiliente. Sem viveiros fortalecidos, não há previsibilidade de oferta de mudas, não há escala produtiva e não há como sustentar a transição para uma economia de base florestal no Brasil.

O posicionamento da Nativas Brasil: é hora de destravar o seguro para viveiros de mudas nativas

A ausência de seguro para viveiros de mudas nativas representa hoje um dos principais entraves ao avanço da restauração ecológica no Brasil. Sem proteção, o setor opera sob risco extremo e com baixa capacidade de crescimento.

Sem seguro, não há crédito. Sem crédito, não há investimento. Sem investimento, não há escala produtiva. E sem escala, a restauração ambiental brasileira não será capaz de atender às demandas do presente e do futuro.

A Nativas Brasil tem atuado há anos para chamar atenção para esse problema. Segundo Rodrigo Ciriello, essa é uma pauta recorrente em reuniões, eventos e articulações institucionais, mas que ainda não saiu do campo do debate para soluções efetivas. Isso precisa mudar o quanto antes!

A entidade defende medidas claras: que este debate avance com objetividade, envolvendo seguradoras, resseguradoras, corretores, SUSEP, CNSeg, IRB, bancos públicos e privados e formuladores de política agrícola e climática.

Alguns passos são urgentes:

  1. Desenvolvimento de produto securitário específico ou adaptação de apólices multirrisco empresarial para viveiros de mudas;
  2. Enquadramento técnico adequado da atividade para permitir cotação e subscrição;
  3. Diálogo entre seguro, crédito e política pública para destravar operações financeiras no setor;
  4. Construção de base de dados de perdas e exposição climática dos viveiros;
  5. Inclusão efetiva da cadeia de sementes e mudas nativas na lógica nacional de gestão de riscos climáticos.

Mais do que uma demanda setorial, trata-se de uma agenda estratégica para o país. Reconhecer e proteger os viveiros de mudas nativas é garantir a base produtiva da restauração, da biodiversidade e da economia do futuro.

O Brasil precisa decidir se vai continuar tratando os viveiros como periféricos ou se vai reconhecê-los como infraestrutura estratégica da agenda climática. Porque a equação é simples, e incontornável:

Sem viveiros, não há mudas.

Sem mudas, não há restauração.

E sem seguro, não há futuro para os viveiros.

Faça parte da nossa associação na produção de sementes e mudas nativas e nos ajude a somar força nessa causa. Conheça os benefícios ao se tornar associado da Nativas Brasil.

Redação: Equipe de Comunicação Nativas Brasil – GreenBond Conservation

MATÉRIA ORIGINAL – https://nativasbrasil.org.br/seguro-para-viveiros-de-mudas/

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