Por Rodrigo Ciriello
Presidente da Nativas Brasil e Diretor da Futuro Florestal
No dia 20 de março de 2026, a convite do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), estive em Brasília para as celebrações do Dia Internacional das Florestas. O evento, marcado por um debate de alto nível sob o tema “Produção Florestal e Conservação”, não foi apenas uma data comemorativa. Foi, na verdade, uma demonstração clara de que o Brasil está passando por uma mudança de paradigma estrutural.
Ao lado de lideranças governamentais — como o Secretário de Desenvolvimento Rural, Marcelo Fiadeiro e oDiretor do Departamento de Florestas da Secretária Nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais, Thiago Belote Silva— e de representante da FAO, Gustavo Chianca, uma convicção que guia o nosso trabalho diário foi reafirmada: a preservação ambiental e a produção agrícola não são forças opostas. Pelo contrário, a verdadeira transformação sustentável do país depende de integrarmos as florestas à nossa matriz produtiva, transformando o que antes era visto como “custo ambiental” no nosso ativo econômico mais estratégico.
O setor florestal atingiu um novo nível de maturidade. Abaixo, destaco os pilares que sustentam essa nova economia da restauração e como o Brasil pode liderar essa agenda global.
1. O Novo Conceito de Restauração: Além do Plantio de Árvores
O primeiro passo para o avanço da Produção Florestal Sustentável é compreender que a restauração de ecossistemas evoluiu. Durante o evento, a apresentação da FAO destacou o conceito de Forest Landscape Restoration (FLR). Restaurar paisagens vai muito além de simplesmente plantar árvores; trata-se de favorecer ecossistemas inteiros, considerando um mosaico de usos da terra que inclui as áreas agrícolas.
Nessa visão integrada, compreendemos a interdependência vital entre as florestas naturais e as florestas plantadas. Como foi pontuado durante os debates, as florestas plantadas aliviam a pressão sobre os ecossistemas nativos, fornecendo matéria-prima para a indústria. Paralelamente, a estruturação da cadeia de sementes e mudas nativas garante a base biológica para a Restauração de Ecossistemas em larga escala. Não existe mais o falso dilema entre plantar ou conservar. Nós precisamos, e podemos, fazer as duas coisas.
2. A Força Econômica da Restauração: Dados Oficiais
O mercado historicamente enxergou a recuperação ambiental com desconfiança financeira. Hoje, o cenário é outro. Dados apresentados por Thiago Bleto do Ministério do Meio Ambiente (MMA) revelam a dimensão deste novo mercado:
- Já existem mais de 127 ações de restauração ecológica mapeadas em todos os seis biomas brasileiros.
- Isso abrange mais de 925 mil hectares.
- E o mais impactante: essas ações representam um investimento superior a R$ 1,5 bilhão, com potencial para gerar mais de 300 mil empregos diretos.
Esses números provam que o setor produtivo florestal já possui musculatura e articulação para pautar o mercado. Quando resolvemos o gargalo da cadeia de sementes e mudas, destravamos uma economia verde bilionária, afirmou Thiago Belote, ressaltando a minha presença como líder da Nativas Brasil Associação Brasileira dos Produtores de Sementes e Mudas Nativas.













3. Investimentos, Crédito de Carbono e Políticas de Estado
A estruturação dessa nova Bioeconomia está sendo impulsionada por políticas de Estado e novos mecanismos de financiamento.
Eduardo Bastos, uma grande liderança no setor do agronegócio e carbono, fez a moderação dos painéis, iniciando com uma forte apresentação, onde falou com ênfase em programas como o Caminho Verde, que é parte da iniciativa global Raiz e ganharam destaque. A meta é ambiciosa: recuperar 40 milhões de hectares de pastagens degradadas nos próximos dez anos, transformando-as em terras agricultáveis de alto rendimento. A isso, somam-se as iniciativas atreladas ao Plano ABC+ (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono) e as inovações financeiras, como os leilões da EcoInvest.
Esses instrumentos trazem a segurança jurídica e o capital necessários para que o produtor rural invista na floresta. A floresta em pé, ou manejada de forma sustentável, gera dividendos claros, culminando na negociação de Créditos de Carbono.
Os dados apresentados sobre o balanço de carbono são inquestionáveis: as florestas brasileiras são o maior sumidouro terrestre do mundo, e a manutenção desse status exige o combate implacável ao desmatamento — que, felizmente, apresenta queda, conforme as tendências globais e nacionais — mas também a expansão das florestas plantadas e o manejo sustentável em biomas críticos como o Cerrado, a Caatinga e o Pantanal.
4. Integração Institucional: Agricultura e Meio Ambiente Caminhando Juntos
Um ponto que merece destaque é a presença integrada de diversos setores. Ver representantes do MAPA, do MMA, da FAO (com projetos robustos na Amazônia e na Caatinga) e do setor privado sentados à mesma mesa simboliza a quebra de um paradigma antigo.
A agricultura não avança sobre a floresta; ela precisa da floresta para sobreviver e prosperar. O regime de chuvas, a qualidade do solo e a resiliência climática das safras dependem da cobertura vegetal. As “rusgas” históricas entre a pauta agrícola e ambiental estão sendo superadas pela necessidade prática de soluções conjuntas, como o avanço dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF).
O Futuro é Florestal
O Dia Internacional das Florestas de 2026 serviu como um marco. O Brasil tem a vocação natural, o território e agora, cada vez mais, a articulação política e financeira para liderar a economia verde global.
No entanto, para que esse potencial se concretize em sua plenitude, precisamos continuar fortalecendo a base da nossa cadeia produtiva. É exatamente nessa frente que a Nativas Brasil e a Futuro Florestal atuam: garantindo que não falte a “semente” para o produtor que quer plantar e para o investidor que quer financiar.
A floresta do futuro é aquela que gera riqueza, protege a biodiversidade e combate as mudanças climáticas de forma simultânea. E essa floresta já começou a ser plantada.















